sábado, outubro 18, 2008

Mais um dia de escola fatigada, ao sair a professora disse-nos para darmos aquele papel aos pais para por eles ser preenchido.

Aquela porta estranhamente encostada não augurava bom prenúncio, mas a minha mãe veio à sala para ler o papel que lhe dei e perguntar como fora o dia. Quando leu as questões a que tinha de responder, denotou-se de súbito que ficara indisposta e logo após voltou para o quarto, ainda que sem sentido de orientação. Depois li a primeira frase do papel, era uma pergunta acerca de quantos filhos tem, se três, se dois, se um.

Entre a fresta da porta vi os meus pais que andavam de um lado para o outro. E o meu irmão continuava deitado na cama, pois conseguia ver os seus pés tapados pelo cobertor. Eu queria entrar para vê-lo e dizer-lhe bom dia, mas aquela porta assim encostada, infelizmente inibiu o meu impulso.

Em seguida voltaram e encaminharam-me para o quarto dos meus pais e lá fiquei. A janela estava fechada e a lâmpada acesa como de noite se faz. Chegou o meu tio e teria de ir com ele. Todos tinham um amargo tom na voz, uma luz apagada no olhar e queriam "raptar-me" daquele local.

Cada uma daquelas ruas onde passámos, estão ainda intactas na minha memória. A parede branca na curva ascendente, o chafariz de azul no lado direito.
Depois chegamos a casa dos meus tios, dão-me um álbum de fotografias para ver e oiço a minha tia repetidamente ao telefone. "- Estou? Sim, olha era para avisar que... O menino morreu".

Queria ter-te olhado uma última vez e dito Adeus.

terça-feira, setembro 02, 2008

A los platos sobre a mesa, a fruta deitada sobre o calor da manhã. Dormia ao longo do campo inédito daquela praça verde insuficiente. Colorida de amarelo, fazia parte do tecido das flores plácidas e contentes. A sombra apenas desenhava o limite físico do corpo, porque a imensa nebulosidade estava agora indefinida.

terça-feira, agosto 12, 2008


Farta do som do português

Ai vordadore, amique num espaço pequelo
Langue isse tudra que tu queres
pode srer tudo o que queres
torcer as apalavradas ao limitatum

... e escolhi o mundo nnovo

segunda-feira, julho 21, 2008

"Mr. November"
Sr. Euletério, adquire tudo o que é velho, talvez por uma nostalgia inquietante. Dirige-se a qualquer loja de antiguidades com aquele gosto nos lábios ao imaginar em seu poder mais um objecto com pó.
Sra. Adorinda, clama por mais peixe na tábua de cozinha, mas o peixe é caro. E há aquele vizinho de quem se diz nunca sair de casa há mais de vinte anos. Trabalhava como auxiliar num hospital mas um certo dia despediu-se do emprego e decidiu passar todos os seus outros dias em casa, fora da observação de qualquer alguém curioso.
E Abel pensava que era terrível estar triste, mas pior que isso é não estar alegre nem triste. Ser indiferente, ausente de sentimentos por tudo, até por aquela flor bonita, pensar que não é bonita mas saber também que não é feia. As baratas também não têm sangue.
Tinha visto aquele filme em que os super-heróis precisam de se manter longe um do outro para que nenhum perca as suas potencialidades. Abel questionava para si próprio se era realmente assim, se o filme pode ter alguma correspondência com o quotidiano.

terça-feira, junho 17, 2008

I am under the impression that this might be one of the reasons why Amy Winehouse does drugs. If i had a daily life like this, i would probably jump of a bridge or something like that. Are there no limitations to the interest of the media? What about people's private life and sanity?

quinta-feira, março 06, 2008

Miosótis

As árvores iluminadas
Where can it be?

... o meu orgão piano salta de dentro destas paredes de tecido
para chegar ao cimo e desintegrar-se em pó que cai sobre ti

Para que eu chegue como o ecoar de sombras
no libertar da pele comum

sexta-feira, janeiro 25, 2008

tragically bumping into something old

A sombra rude de alguém que sou eu.
Traveller cheques
Deixo que o tempo me marque com um sinal exuberante
Improviso.
São sons distorcidos que me descrevem
Como que arrastam um saco de palha no terreiro, de contentamento momentâneo.
Eu, que sou feminino.
Encontro moroso num lábio incendiado de vezes incontáveis.

sábado, janeiro 19, 2008

Ice Rocks

Hoje é sábado, mas no fundo é apenas mais uma quarta-feira. Vou no comboio, olho para a janela e é escuro. Passamos numa estação ferroviária onde, ainda na semana passada, morreu uma pessoa colhida por um comboio, tal é a qualidade e segurança de muitas das nossas estações suburbanas. O local onde a fatalidade aconteceu está assinalado por uma coroa de flores - que pelos vistos ainda não foi vandalizada. Recordo que no outro dia, nesta mesma estação vi um rato a passear perto da zona de espera dos passageiros, o que me fez imaginar aquela estação como um cano de esgoto... Sem ofensa aos ratinhos, obviamente. Mas agora... agora a estação assimila-se mais a um cemitério.
De qualquer maneira, pouco depois, senta-se a meu lado uma rapariga com um embrulho ao peito um bébé, penso eu. O normal nestas situações talvez fosse o meu olhar para o pequeno ser em tons ternurentos, de modo a criar uma certa situação de intimismo social e finalmente de justificação perante a condição humana. Mas não o faço. O que me interessa a mim o produto que outra pessoa realizou? Que tenho a ver com isso e qual é a minha obrigação em visualizar esse produto fabricado?... Nunca gostei muito de crianças de qualquer modo... Não que tenha algo contra elas, apenas não sinto empatia imediata pela sua categoria em termos sociais. Porque é que temos que gostar de crianças só porque são crianças? Se não tenho resolução para as minhas próprias questões filosóficas, como iria suportar as dúvidas abruptas e por vezes violentas que cada criança tem? E que direito teria eu de limitar a natureza curiosa inerente a cada uma delas com a minha definição insuficiente da realidade?
Depois olho para o lado, finalmente, vejo que é apenas um cãozinho bébé embrulhado numa série de mini-cobertores. E penso que... é um cãozinho adorável e eternecedor. :\

sábado, dezembro 29, 2007

Abre-se o túmulo e desce alguma da minha carne
Depois fazem subir-se também alguns ossos meus
Num lençol branco, já não merecem urna
São o derradeiro significado do Nada e
Ao baterem na urna emitem um estranho som rígido
e oco

E desvanece-se também algum do meu sorriso
E convidam-se algumas das minhas lágrimas despudoradas

Fecha-se o sol duas vezes e colocam-se chocolates sobre a mesa

Fixos os olhares no chão
Contemplo a pobreza. Hoje durmo ao relento.
Ainda que houvessem mil casinos e hotéis em meu poder, hoje seria apenas mais um sem abrigo

segunda-feira, novembro 05, 2007

Caminharemos um dia pela rua que nos distingue e nos exulta
Sem ponteiros de direcção indirecta
festins boémios desencantados por baixo de qualquer pedra submissa
A noite ali permanece todos os dias
Aguarda sinais de vida

segunda-feira, setembro 03, 2007

Respirar e pesar o que no íntimo existe como que uma forte espada pendurada de uma árvore. Desce da árvore, entra no corpo e corrompe irremediavelmente o mortal tecido carnudo que compõe o braço esquerdo. Com toda a estranheza e choque na obstrução do oxigénio.
"Não"
"Não"
"Não"
Sentada no mais alto rochedo
nada
a não ser o mar
anão
Atingir o ondular faseado e o céu indolor
Mistérios nunca antes parafraseados
O aroma fustigado da pele corpórea
Mas querer nivelar o rochedo alto
e o mar
anão!
O espaço inerte não significa que queiras intacta toda a rude amargura dentro de mim

Estas palavras como todas as outras que já proferi
deslizam sem critério, à velocidade do parafuso apertado,
não consigo articulá-las, as mesmas auto-organizam-se formando sombras que desconheço

quinta-feira, junho 14, 2007

No corredor invisível de sombras e sons prevêm-se tortilhas de Domingo que apetecem ao mais indeciso dos mortais... Escreve, senta-se um homem gelado e escreve. Um ponto, outro ponto e uma vírgula, ainda um ponto de interrogação. Mais uma reticência, renitência dos pudores sãos de oferecer ao mundo o melhor do seu ser. No interior o proveito do sumo, o sentimento. Não sei o que movimentam os teus lábios, não sei onde procurar o ruído. Concentra-se o auge no decadente ritmo do gesto repetido e aqui estou eu e aqui estamos nós, regressados ao hábito.

quinta-feira, maio 17, 2007

Há sol como há fendas
de branco, inusitado,
ainda assim, não hesita o passo na escuridão
Ergue o espírito solene no abraço inimigo
Vejo cadeiras e vejo canetas
Contudo, não há palavras para escrever
nem corpos para sentar
Vejo ruas sem passos que
num andar circunstancial,
inundem a rua de movimento.
Em realidade, olho um espelho mas não vejo o Eu.

quinta-feira, maio 10, 2007

For the world is also made out of fluffy things ...

terça-feira, abril 24, 2007

Sigur Ros - The Nothing Song
My Body is a Cage
Neon Bible

Arcade Fire - No Cars Go



O desafinado apenas corrobora o apuramento artístico... Pelo menos na minha opinião... ;)